• Quando o preconceito está na moda

    16 de junho, 2014

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    Emmanuelle Coco Chanel dizia que “a moda passa, mas o estilo permanece”. No entanto, a intolerância religiosa, que deveria passar, permanece a mesma. Sou filha de pai judeu e mãe católica e minha família sempre me passou valores de tolerância e de respeito para com a opinião e a religião dos outros.
    Como estudante de jornalismo e extremamente conectada com tudo que diz respeito à moda, sinto-me incomodada com o modo como o povo judaico é tratado nesse meio artístico. Os vestígios da intolerância religiosa que estavam presentes na Segunda Guerra Mundial ainda respingam na sociedade contemporânea. E eu me pergunto quando isso vai parar. Em que momento as pessoas vão perceber que o respeito ao próximo devem sempre pautar a vida em sociedade e que sem isso não há como viver.
    Os boatos de que a estilista Coco Chanel teria trabalhado como espiã para os nazistas (de número F-7124) durante a Segunda Guerra Mundial, de que ela teria tentado roubar os bens de seus sócios judeus, assim como sua ligação com o barão Hans Gunther von Dincklage (oficial alemão que realizava serviços secretos) e com o ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels acabam por ficarem claramente evidenciados para quem lê o livro “Dormindo com o inimigo: a Guerra Secreta de Coco Chanel”, do jornalista Hal Vaughan.
    Sou uma grande apreciadora e amante de moda, mas acho que, antes de enaltecermos Coco como pessoa, apenas levando em consideração seu legado fashion, devemos considerar seu caráter. Uma pessoa que contribui para o disseminação e a permanência da crueldade inominável dos nazistas não deixa de ser como um deles; já que, em consequência de suas práticas e informações, provavelmente facilitou a morte de milhares de judeus, dentre outras etnias e grupos discriminados pelo nazismo.
    Chanel, segundo pesquisadores, era claramente antissemita: “Só tenho medo dos judeus e dos chineses, e mais dos judeus do que dos chineses”, teria dito a um amigo íntimo; mas seus representantes desmentem esta suposta declaração ao afirmarem que ela possuía amigos e sócios judeus. O que na verdade não modifica o fato e o seu comportamento.
    O meu questionamento também vale para o estilista John Galliano, que há pouco tempo também, se envolveu em confusões por dar declarações antissemitas e por “provocar” os judeus ao vestir-se como os ortodoxos. Galliano se desculpou por suas atitudes e justificou seus comportamentos, que, segundo ele, foram causados pelo vício em comprimidos, o abuso de álcool e o bullying sofrido na sua infância.
    Sei que não me cabe julgar Coco e Galliano, mas é meu direito repudiar qualquer forma de preconceito que percebo na sociedade. Muitos jovens, assim como eu, estão se manifestando em prol de uma sociedade menos preconceituosa.
    Essa voz que “calou” Galliano e fez com que o estilista fosse demitido da Dior onde trabalhava e protestou contra a realização de uma palestra dele na Universidade de Parsons é a mesma voz que luta pela igualdade de direito religioso, racial, étnico, sexual e de opinião.
    O mundo está dando novas chances para as pessoas repensarem o preconceito, assim como as marcas Oscar de La Renta e L’Etoile deram uma nova chance para Galliano na profissão. Cabe a ele e outras pessoas pelo mundo seguirem o exemplo e repensarem antes de emitirem opiniões discriminatórias publicamente.
    Num mundo pautado na democracia, é muito triste pensar que pessoas não respeitem opiniões diversas às suas, sejam elas a propósito de convicções religiosas – como aqui expressa, especificamente -, ou de quaisquer outras, como raça, classe social, orientação sexual, situação econômica, convicções políticas, etc. E, convenhamos, a moda não está e nunca esteve ilesa disso.

    Fontes:

    http://www1.folha.uol.com.br

    http://veja.abril.com.br

    http://ffw.com.br/noticias/gente/john-galliano-esta-de-volta-mega-empresa-de-beleza-da-russia-contrata-o-super-designer 

    livro “Dormindo com o inimigo”de Hal Vaughan

Raquel P. Fejgiel

Criei o blog em 2014, com a intenção de escrever sobre moda, gastronomia, lifestyle, beleza e viagens. Sou formada em Jornalismo na UFRJ, Produção de Moda pela Puc-Rio e Branding no IED Rio. Entre vários cursos que fiz na área de moda estão alguns como "Marcas que fazem a Moda no Rio" na Casa do Saber, Personal Stylist e Jornalismo de Moda no Instituto Rio Moda.

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