• O que a sociedade das aparências precisa aprender sobre o consumo

    8 de outubro, 2021

    Eu sempre amei e ainda amo acompanhar as semanas de moda e observar o vai e vem constante das tendências, mas estamos em 2021 tentando “respirar” durante uma pandemia. Ao retomarem os desfiles internacionais retornam também as coberturas dos mesmos, talvez especificamente agora com um gostinho especial de quem passou meses em casa usando moletom. 

    Essa realidade toma uma proporção gigantesca ao escancarar para o mundo todo uma chuva de looks desfilados pelas ruas de Paris, por exemplo, 3 ou 4 looks usados no mesmo dia, um para cada desfile, 1 para cada caminhada, 1 para cada marca do momento. Tudo isso em meio ao debate sobre consumo excessivo. A cada post uma bolsa é “a bolsa do momento” e a sociedade das aparências vê aquilo como se fosse um sonho, o paraíso, um objetivo de vida. Seria mesmo? 

    Quem trabalha (assim como eu) imerso no mercado de moda nacional entende que ainda estamos caminhando para uma produção mais consciente e vê de dentro as marcas batalhando para seguir esse rumo, que não vira uma chave de uma hora para outra. Seria hipocrisia dizer que não nos sentimos atraídos por novidades e grandes lançamentos mas é importante ter um olhar crítico sobre o que se compra, de quem se compra, quando se deve comprar ou se é apenas mais uma vontade passageira. Nesse ponto gosto de citar Gilles Lipovetsky em sua obra “O Império do Efêmero”: “Assim, a moda está nos comandos de nossas sociedades; a sedução e o efêmero tornaram-se, em menos de meio século, os princípios organizadores da vida coletiva moderna; vivemos em sociedades de dominante frívola, último elo da plurissecular aventura capitalista-democrática-individualista”. 

    Não precisamos parar de consumir o que gostamos mas sim refletir uma maneira de comprar de forma mais consciente. Quer uma bolsa nova? Justo, que tal comprar de second hand? Precisamos mesmo ainda de bolsas de couro por ex. tendo tantas marcas com produtos de ótima qualidade produzidos de biomaterial, cogumelo, etc?

    O movimento internacional da moda acendeu uma urgência de pensamento crítico que chegou nas marcas brasileiras, não basta lançar uma nova coleção e sim refletir sobre o que sua nova coleção agrega à sociedade, perguntando, por exemplo: os produtos são feitos com matéria prima responsável? A marca tem um destino para as peças que não são vendidas de coleções antigas? A loja incentiva uma revenda de peças usadas?

    O mercado da moda não precisa esquecer as tendências, parar de lançar novas coleções, ninguém aqui é bobo, vivemos em uma sociedade de consumo que vive de fabricar desejos que sequer sabíamos que um dia seríamos levados a ter, mas sim pensar nos últimos anos vividos por nós e pelo meio ambiente, olhar para dentro, para trás e para o futuro. 

    Se o que você veste diz muito sobre você quem vai querer comunicar ao mundo uma mensagem tão ultrapassada e rasa? 

Raquel P. Fejgiel

Criei o blog em 2014, com a intenção de escrever sobre moda, gastronomia, lifestyle, beleza e viagens. Sou formada em Jornalismo na UFRJ, Produção de Moda pela Puc-Rio e Branding no IED Rio. Entre vários cursos que fiz na área de moda estão alguns como "Marcas que fazem a Moda no Rio" na Casa do Saber, Personal Stylist e Jornalismo de Moda no Instituto Rio Moda.

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